quarta-feira, 10 de junho de 2009

Nuvens por todo o lado

Cinco da matina. Levanto, pego minhas roupas e levo-as para o banheiro: tortura. Sem aquecedor, preciso criar coragem para entrar no banheiro e ficar pelado,com aquelas frias paredes e o chuveiro que demora a esquentar. Quando esquenta, preciso diminuir o fluxo dágua para que esquente mais. Já ouviu falar de banho de fio? Pois é, tomo banho pela manhã num fio pelante. No corpo ficam as marcas em forma de flagelo. Depois do banho rápido, secar-se deve ser mais rápido ainda.Escovar os dentes? Rápido e com pouca água, para enxaguar a boca e tirar a pasta do queixo. Só. Retorno ao quarto e pego a roupa que usarei durante o dia. Está guardada devidamente debaixo das cobertas, para esquentar um pouco ou pelo menos não ficar tão gelada. Um café pra esquentar o corpo - pelo menos um pouco - e enquanto esquento o leite, aqueço as mãos no fogo. Depois do café feito, calço as luvas e bebo como se fosse a salvação do corpo e da alma. Agora eu acordei.
Nem vejo como está lá fora, pois sei que ainda amanhece. Não está dia por completo. Pego minha mochila e zarpo pra rua. No elevador vejo minha cara de "acordei agora", mesmo depois do banho e do café. Nem ligo, não terá muita gente na rua mesmo. Até chegar no trampo, já estará dia e minha cara melhorará, espero. E noto também que esqueci algo importante: a toca. Abro a mochila, pego-a e coloco na cabeça, dane-se que espalhará os cabelos. Ao chegar na rua, um nevoeiro só. Parece que ainda estou dormindo, como se fosse um sonho. Não há ninguém, exceto alguns carros ou ônibus circulando. Mas são poucos, ainda. Minhas mãos não saem dos bolsos. Meus olhos se fecham um pouco, pois o vento é forte e frio. Olho em direção a copa das árvores e não enxergo-as, pois a neblina as encobriu. O mais bonito foi notar que os bancos da praça estavam assim também: neblinados. Nesse momento eu sorri, feito bobo que sou. Senti uma vontade de agradecer pelo tempo, pelo dia, apesar do frio. Aquela neblina baixa me fez pensar numa coisa boba: achei que poderia estar no céu. Ao notar um pássaro voar de uma árvore para outra, pensei em anjos. E eu? Não sei o que poderia ser. Só sabia que isso tudo era pra mim: o dia que amanhecia; o frio; as àrvores; os pássaros. Tudo. Senti, então, como se o frio não estivesse tão forte e o vento não fosse assim tão gelado. Senti alegria. Como se ela transbordasse e me protegesse, um pouco. Resolvi sentar no banco da praça, esconder-me por entre as nuvens baixas. Fiquei olhando para o céu iluminando-se a cada instante. O sol encondeu-se por entre as nuvens, cinzas, porém cintilavam, irritando os olhos um pouco. Respirava o ar fresco da manhã e esquecia-me do tempo. Aos poucos a névoa foi se dissipando, as pessoas enfim aumentavam o fluxo da praça, os pássaros cantavam mais forte e voavam por entre as árvores. Fechei os olhos e senti a beleza fluir como sendo energia, recarregando-me para o dia que viria. Respirei fundo, enchendo o peito de ar e soltando pela boca. O frio e o cinza do céu não eram mais empecilhos para o meu dia. Ele continuaria lindo e inspirador. Acho que com esse pensamento, cochilei um pouco, talvez. Só ouvi o barulho da freada do ônibus parando num ponto logo a minha frente. Abri os olhos e não havia mais neblina, só pessoas passando rápido por mim, carros e ônibus apressados nas ruas. Só tive o ímpeto de levantar e sair correndo até o meu tubo. Perdi meia hora,mas ganhei a energia que precisava para seguir adiante.